Levantamentos de Datafolha, Quaest e outros institutos divergiram do resultado do primeiro turno presidencial. Comparação mostra que algumas pesquisas conseguiram identificar a liderança de Flávio Bolsonaro, enquanto outras apontavam Lula numericamente à frente.
A confiança do eleitor brasileiro nas pesquisas eleitorais voltou ao centro do debate após o primeiro turno das eleições de 2026. A diferença entre as intenções de voto divulgadas por alguns institutos e o resultado das urnas levantou questionamentos sobre a capacidade desses levantamentos de antecipar o comportamento do eleitorado.
A discussão ganhou força porque, durante a campanha presidencial, diferentes pesquisas indicaram cenários distintos para a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Na reta final, parte dos levantamentos ainda mostrava Lula numericamente à frente, mas a votação terminou com o candidato do PL na primeira colocação.
O resultado oficial confirmou Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de aproximadamente 1,87 ponto percentual, garantindo aos dois candidatos uma vaga no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Datafolha e Quaest: Lula aparecia numericamente à frente
Entre os levantamentos que mais chamaram a atenção estão os do Datafolha e da Quaest, dois dos institutos mais conhecidos do país.
Na pesquisa Quaest divulgada em 3 de outubro, véspera da votação, Lula aparecia com 46% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro registrava 45%. O cenário era de empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.
O resultado das urnas, porém, apresentou uma inversão: Flávio terminou o primeiro turno com 47,03%, e Lula, com 45,16%.
O Datafolha também apontava Lula numericamente à frente no levantamento divulgado na véspera da eleição. O instituto estimava 45% dos votos válidos para o petista e 42% para Flávio Bolsonaro.
Na apuração oficial, o candidato do PL ficou à frente, enquanto Lula terminou na segunda posição. A divergência alimentou críticas aos levantamentos, especialmente nas redes sociais.
É importante destacar que a margem de erro não funciona como garantia de que o resultado ficará dentro de determinada faixa. Ela expressa uma estimativa de incerteza amostral, considerando as condições estatísticas do levantamento. Além disso, pesquisas medem intenções de voto no período em que as entrevistas são realizadas, e não necessariamente a decisão final de todos os eleitores.
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Quais institutos mais se aproximaram do resultado?
Um levantamento comparativo publicado pelo Placar das Pesquisas analisou as últimas pesquisas presidenciais divulgadas na janela de até dez dias antes da votação e comparou os números com o resultado oficial.
Entre os 17 institutos considerados nessa análise, os resultados apontaram diferenças relevantes de desempenho.
– Veritá: ficou na primeira posição do comparativo, com erro de 0,1 ponto percentual na diferença entre os dois primeiros colocados.
– Gerp: apareceu na segunda posição, com erro de 0,3 ponto percentual.
– Futura: ocupou a terceira colocação, também com erro de 0,3 ponto percentual.
– Palver: ficou na quinta posição, com erro de 2,2 pontos percentuais.
– Datafolha: apareceu na oitava posição, com erro de 4 pontos percentuais.
– Quaest: ficou na décima posição, com erro de 4,2 pontos percentuais.
O indicador utilizado nesse ranking mede a diferença entre a vantagem de um candidato sobre o outro na pesquisa e a vantagem registrada nas urnas. Portanto, ele não representa necessariamente o erro médio de todos os percentuais divulgados pelo instituto.
O resultado também evidencia que popularidade e tradição não são suficientes para garantir maior precisão em uma eleição específica. Institutos menos conhecidos podem obter resultados mais próximos em determinadas disputas, enquanto organizações consolidadas também estão sujeitas a divergências.
AtlasIntel, Paraná Pesquisas e Real Time Big Data
Outros nomes conhecidos do mercado também tiveram seus resultados comparados com as urnas.
A AtlasIntel, que utiliza entrevistas pela internet em sua metodologia, ficou atrás dos três primeiros colocados no levantamento do Placar das Pesquisas. Já a Paraná Pesquisas e a Real Time Big Data aparecem entre os institutos avaliados em análises mais amplas sobre a precisão dos levantamentos eleitorais.
Em um painel comparativo mais abrangente, que reúne disputas presidenciais, estaduais e para o Senado, Datafolha, Quaest, AtlasIntel, Real Time Big Data e Paraná Pesquisas aparecem entre os institutos com cobertura suficiente para integrar o ranking geral.
Esses resultados, entretanto, não devem ser confundidos com uma classificação exclusiva da eleição presidencial. O desempenho de um instituto pode variar conforme o estado, o cargo disputado, o tamanho da amostra, o período das entrevistas e a metodologia utilizada.
Por que as pesquisas podem divergir das urnas?
Não existe uma única explicação para todas as diferenças observadas em 2026. Entre os fatores que podem influenciar os resultados estão:
1. Mudanças de última hora: eleitores podem decidir o voto nos últimos dias da campanha, depois da realização das entrevistas.
2. Participação eleitoral: nem todos os entrevistados necessariamente comparecem às urnas. Estimar quem efetivamente votará é um dos desafios das pesquisas.
3. Metodologia: institutos podem utilizar entrevistas presenciais, telefônicas ou pela internet, além de diferentes critérios para selecionar e ponderar os entrevistados.
4. Distribuição do eleitorado: diferenças na composição da amostra e nos ajustes estatísticos podem afetar as estimativas.
5. Indecisos e votos em outros candidatos: a distribuição desses eleitores pode alterar a comparação entre os dois principais concorrentes.
Esses fatores ajudam a compreender possíveis divergências, mas não justificam automaticamente qualquer resultado. Para avaliar a qualidade de uma pesquisa, é necessário examinar sua metodologia, o registro eleitoral, o período de coleta, a amostra e o desempenho comparado com as urnas.
A desconfiança deve aumentar?
A diferença entre pesquisas e resultados oficiais pode abalar a credibilidade dos institutos, principalmente quando os números são apresentados ao público como se fossem previsões definitivas.
Por outro lado, uma pesquisa eleitoral é uma fotografia estatística de determinado momento. Ela não é uma contagem antecipada dos votos e não deve ser tratada como resultado garantido.
O caminho para recuperar a confiança passa pela transparência dos métodos, pela divulgação dos dados técnicos e pela comparação sistemática dos resultados com as urnas. Também é importante que o eleitor diferencie empate técnico, liderança numérica e vantagem estatisticamente significativa.
O primeiro turno de 2026 deixou uma lição importante: acompanhar apenas um instituto pode oferecer uma visão incompleta da disputa. Comparar diferentes levantamentos e observar a evolução dos números ao longo da campanha é uma maneira mais responsável de avaliar o cenário eleitoral.
Com o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, a atenção volta-se agora para os novos levantamentos. Resta observar se as pesquisas conseguirão acompanhar as mudanças de intenção de voto até o dia 25 de outubro e se os resultados finais estarão mais próximos das estimativas divulgadas.
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